O Brasil tem um recorde histórico de locatários.
O número de brasileiros vivendo de aluguel alcançou 46,5 milhões em 2024, representando 21,9% da população total, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE.
O percentual de domicílios alugados subiu de 22,3% em 2023 para 23% em 2024, totalizando 17,8 milhões de imóveis — um crescimento de 45,4% em relação a 2016.
O setor imobiliário celebra esse número. Faz sentido. Mais inquilinos significa mais contratos, mais receita de administração, mais oportunidade de mercado. O que o setor não discute com a mesma intensidade é o que esse crescimento trouxe junto: um perfil de risco muito mais complexo, distribuído de forma desigual, e que a maioria das imobiliárias ainda não sabe ler.
Esse é o problema real.
Crescimento de Demanda Não É o Mesmo que Crescimento de Qualidade
Em 2024, os novos contratos de aluguéis residenciais ficaram, em média, 13,50% mais caros — quase o triplo do IPCA, que avançou 4,83% no ano. Preço subindo acima da inflação, em um mercado com demanda crescente, parece uma equação simples. Mas ela ignora o outro lado da conta.
Na Classe B, o aluguel médio já mostra sinais de pressão financeira, com quase 30% dos pretendentes comprometendo 40% ou mais da renda. Na Classe C, o cenário é ainda mais delicado: mesmo em locações de baixo valor, grande parte já opera no limite, com comprometimento de 40% a 50%.
Isso significa que o mercado está cheio de contratos assinados por pessoas que, tecnicamente, não deveriam ter assinado — ou que assinaram em um momento de estabilidade que não durou. Quando a renda oscila, o aluguel é a última conta a deixar de pagar.
A moradia segue como prioridade para grande parte da população, mas o receio de perder o lar impulsiona comportamentos que mascaram a fragilidade real do orçamento.
O Risco Não Desapareceu. Ele Mudou de Endereço.
Em um ambiente de juros elevados, crédito mais seletivo e orçamento das famílias tensionado, a locação passou a absorver parte importante dos efeitos macroeconômicos. Isso ajuda a explicar por que administrar locação hoje se tornou, em muitos casos, mais crítico do que administrar condomínio. O aluguel, por natureza, é mais sensível às oscilações econômicas: sofre com renda comprimida, rotatividade, desemprego e aumento do custo de vida.
O Índice de Inadimplência de Aluguéis aponta que, em março de 2026, 5,4% dos contratos tiveram atraso superior a 15 dias — uma melhora frente ao pico de 7% em julho de 2024. A queda é real. Mas 5,4% sobre uma base de dezenas de milhões de contratos não é uma estatística confortável. É uma escala de problema.
E o risco não é uniforme.
Os atrasos são mais comuns em imóveis até R$ 1 mil, enquanto faixas intermediárias de R$ 3 mil a R$ 5 mil tiveram menor incidência, e o Nordeste lidera os índices, enquanto o Sul apresenta os menores. Uma imobiliária que trata todos os contratos com a mesma régua está, na prática, gerenciando às cegas.
O Que o Setor Precisa Parar de Fazer
A resposta convencional ao risco de inadimplência é burocrática: mais documentos, mais exigências, mais garantias empilhadas. O resultado é um processo que afasta inquilinos com bom perfil e ainda assim não protege de verdade contra os que não pagam.
Empresários e autônomos representam 40% da base de pretendentes a locação no Brasil, superando os funcionários CLT — o que revela a importância de critérios técnicos para validar rendas variáveis. A análise de crédito que funciona para um assalariado simplesmente não funciona para esse perfil. Mas a maioria das imobiliárias usa o mesmo critério para os dois.
Os dados indicam que cada perfil exige uma resposta específica, e que tratar todos os pretendentes com o mesmo critério é, ao mesmo tempo, um risco e uma oportunidade perdida.
Isso é o que o setor precisa ouvir: o problema não é que os inquilinos são ruins. O problema é que a análise de risco ainda é genérica em um mercado que ficou muito mais segmentado.
O Que Muda Quando Você Lê o Risco de Verdade
O Índice de Inadimplência de Aluguéis reúne informações de 500 mil contratos em todo o Brasil. "Mesmo com juros elevados pressionando o orçamento das famílias ao longo do ano, o mercado de trabalho seguiu resiliente, com renda real relativamente estável", afirma Sandro Westphal, vice-presidente de Alianças e Parcerias Estratégicas da Loft.
Esse tipo de dado — granular, contínuo, regionalizado — é o que separa uma imobiliária que reage da inadimplência de uma que a antecipa. Não é uma questão de tecnologia pela tecnologia. É uma questão de saber, antes de assinar o contrato, qual o perfil real de risco daquele inquilino naquele contexto econômico.
O mercado de aluguel brasileiro vai continuar crescendo.
Os domicílios próprios perderam participação, caindo de 66,8% em 2016 para 61,6% em 2024, e não há sinal de reversão dessa tendência. Mais pessoas vão alugar. Mais contratos vão ser assinados. E a diferença entre as imobiliárias que prosperam nesse ambiente e as que acumulam inadimplência não vai estar no volume de contratos fechados.
Vai estar em quantas delas aprenderam a ler o risco antes de assinar.

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