O mercado imobiliário brasileiro ainda carrega um vício antigo: tratar informação como poder privado. Durante décadas, saber o preço real de transação, entender a dinâmica de um bairro ou comparar oferta e demanda com alguma precisão foi privilégio de poucos. Esse modelo envelheceu mal. Num setor que segue aquecido, a opacidade deixou de ser vantagem competitiva e passou a ser custo operacional. No primeiro trimestre de 2025, as vendas de imóveis cresceram 15,7% sobre o mesmo período do ano anterior, enquanto a oferta final caiu 4,6%. Em mercado mais pressionado, errar preço, timing e perfil de demanda custa mais caro.
A tese é simples: a próxima fronteira de profissionalização do imobiliário não é mais automação por si só. É transparência útil. Não basta digitalizar formulário, contrato e atendimento. O que muda o jogo é colocar inteligência de mercado na mesa de quem decide. Sem isso, o setor continua moderno na interface e analógico no raciocínio.
Há um ponto que parte do mercado ainda resiste em admitir: abrir dados não enfraquece a intermediação. Faz o oposto. Quando preços, localização, características do imóvel e tendências de busca ficam mais claros, o corretor deixa de ser guardião de informação escassa e volta a ocupar o lugar que realmente importa, o de intérprete qualificado do contexto. Essa mudança melhora a conversa com proprietário, reduz fantasia na precificação e encurta negociações que antes morriam por desalinhamento de expectativa.
É aí que muita proptech errou nos últimos anos. Vendeu a fantasia da desintermediação total, como se comprar, vender ou alugar imóvel fosse equivalente a pedir um carro por aplicativo. Não é. Pesquisa nacional feita em 2024 mostrou que apenas 11% dos brasileiros comprariam ou alugariam um imóvel em um processo 100% online. O dado mais importante não é o apego ao presencial. É o que ele revela: no imobiliário, confiança continua sendo construída com mediação humana, sobretudo quando a decisão fica mais cara, mais emocional e mais irreversível.
Por isso, transparência não substitui a imobiliária. Ela separa as boas das irrelevantes. Num mercado maduro, sobreviverá melhor quem souber combinar duas competências: método para operar e repertório para orientar. O profissional que ainda depende de assimetria de informação para parecer valioso já está atrasado. O que ganha espaço agora é quem consegue dizer, com base em evidência, por que um imóvel está fora do preço, por que um bairro mudou de patamar, por que uma carteira rende menos do que poderia.
Nesse ponto, a trajetória da Loft merece atenção menos pelo discurso de tecnologia e mais pela escolha cultural que ela sinaliza. Desde 2022, a empresa mantém um núcleo multidisciplinar dedicado a disseminar análises sobre o mercado imobiliário para a sociedade, trabalhando com grandes bases de dados e pesquisas de opinião. No próprio portal editorial, a proposta declarada é publicar conteúdo apurado por jornalistas profissionais. Isso importa porque mostra uma visão menos estreita do papel da informação: dado não como isca comercial, mas como infraestrutura de mercado.
Esse é o ponto de virada. O setor imobiliário brasileiro não precisa de mais promessa de revolução. Precisa de menos obscuridade, menos achismo e menos dependência de relações informais para resolver problemas que já deveriam ser sistêmicos. A empresa que entender isso antes vai parecer mais confiável. A imobiliária que operar assim vai precificar melhor. E o corretor que abraçar esse movimento vai deixar de disputar atenção no grito para disputar relevância no argumento.
No fim, informação pública de qualidade não é detalhe editorial. É a base de um mercado mais profissional. E, no imobiliário de hoje, profissionalismo vale mais do que espetáculo.
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