Cobogó: o que é e como deixar sua casa mais iluminada e decorada

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Com a finalidade de dividir, mas sem separar completamente, o elemento vazado tipicamente brasileiro ajuda na iluminação e na ventilação - além de trazer charme aos ambientes e criar até um ar até meio retrô

30 de junho de 2022

Autor Nádia Kaku
Atualizado: 04 de julho de 2022 9 min de leitura
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O nome cobogó pode parecer estranho à primeira vista, mas com certeza todo mundo já viu um na vida: nada mais é do que um tijolo vazado, uma espécie de bloco com aberturas, que pode servir de decoração, parede divisória e até fazer parte de móveis - e está disponível em diversas cores, formatos e materiais. “Apesar de ser muito utilizado em fachadas e em muros que separam ambientes internos e externos, hoje, o cobogó faz também parte dos interiores, já que está disponível em um grande número de materiais e modelos”, explica a arquiteta Cristiane Schiavoni. Flexibilidade, textura e volume são algumas das características que o revestimento oferece, tornando-se um material muito apreciado nos projetos de lofts, apartamentos pequenos, kitnets e outros espaços.

Origem do cobogó

Criação brasileira datada da época de 1920, a invenção saiu da mente de dois comerciantes e um engenheiro de Pernambuco. “O nome cobogó vem das iniciais deles, o (Amadeo Oliveira) Coimbra, o (Ernest August) Boeckmann e o (Antônio) de is”, ensina Cristiane. A denominação, no entanto, sofre variações pela sonoridade incomum. Pelo Brasil, é possível ouvir palavras como combobó, combogó, comogó, comongol, comogol e até comungó. 

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Cobogós marcam a fachada dos prédios residenciais em Brasília. Foto: Shutterstock

“Como o nordeste é muito quente, eles tinham a necessidade de ter uma ventilação permanente, mas sem bloquear a passagem de luz”, conta a arquiteta. As primeiras peças feitas de cimento eram utilizadas principalmente nas fachadas. No entanto, o que começou de forma regional, expandiu rapidamente para o resto do país. Grandes nomes da arquitetura como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa utilizaram cobogós em seus projetos - os tijolos vazados, inclusive, caracterizam grande parte dos prédios residenciais de Brasília.

Outro exemplo da globalidade do material é a fachada lateral do centro cultural Japan House, localizado na Avenida Paulista, em São Paulo: cobogós brancos compõem com a madeira, em um projeto assinado pelo arquiteto japonês Kengo Kuma em parceria com o escritório brasileiro FGMF.

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Para o cobogó da fachada lateral da Japan House, a Stone Pré-Fabricados Arquitetônicos utilizou 220 placas sobrepostas de um concreto de ultra alto desempenho. Foto: Shutterstock

Como usar o cobogó na decoração 

O grande diferencial desse elemento vazado consiste na versatilidade. Além de possibilitar a entrada de luz natural e a ventilação dos ambientes, também cria privacidade e pode ser usado em áreas úmidas. “Ele é excelente para separar, por exemplo, uma cozinha da área de serviço, assim como a ligação entre dormitório e banheiro. Também atua como uma ‘contenção’ para que os odores não transitem entre os ambientes”, comenta a arquiteta Flávia Burin, do escritório Studio HA.

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Neste projeto assinado por Cristiane Schiavoni, os cobogós revestem uma parede de marcenaria e se transformam num painel de TV. Crédito: Raul Fonseca

No entanto, seu uso pode se estender para todos os ambientes de uma casa ou apartamento: setorizar a cozinha, isolar a área do box do banheiro ou até dar um charme no hall de entrada são soluções comuns. “Uma boa opção é usar para esconder portas ou entradas, sem atrapalhar a climatização do ar-condicionado”, conta Cristiane. A profissional também indica a mescla de técnicas, como unir marcenaria e cobogós para criar um painel de TV. Se a opção for por colocar os blocos na frente de uma parede, é possível criar contraste com cores diferentes ou utilizando uma iluminação direcional. “Também podemos personalizá-los, pois existem fábricas que aceitam encomendas de padrões”, informa Flavia.  

Outra vantagem é que, por ser leve, criar uma parede de cobogós gera menos sobrepeso em uma laje do que construir uma superfície de tijolos ou de concreto. Ou seja, é um material comumente indicado para ser usado em apartamentos, já que dificilmente irá interferir na estrutura do edifício. Aqui vale lembrar que o cobogó é considerado um revestimento decorativo e não estrutural - ou seja, não substitui uma parede de sustentação. E, em qualquer projeto que envolva construção, a recomendação é sempre consultar um arquiteto ou engenheiro para avaliar a obra.

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O painel de cobogós pretos serve de fundo para a TV e também separa fisicamente a sala da cozinha. Projeto Pat Cillo. Foto: Mariana Orsi

Como instalar em casa

Apesar de não precisar de um profissional especialista em cobogó, na hora de contratar a mão-de-obra para seu projeto, o melhor é chamar alguém experiente em obras. “O primeiro passo é ler os manuais de instrução para esclarecer quaisquer tipos de dúvidas a respeito do uso e da instalação e conferir sugestões de paginação”, explica Anderson Patrício, coordenador da Garantia da Qualidade Decortiles.

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Cobogós da Decortiles criam delimitam a área do banho neste banheiro. Produção: Deborah Apsan. Foto: Evelyn Muller

Na hora de assentar os cobogós, deve-se prestar atenção se as peças estão niveladas em relação às superfícies. Como os blocos são individuais, lembre-se de que não é possível cortar as unidades  - às vezes é necessário completar cantos ou laterais da parede com madeira ou gesso. A dica aqui é dispor os cobogós no chão antes de iniciar a colocação. "Isso vale para analisar se a acomodação dos blocos está correta e evitar que você confunda ou inverta a posição das peças", recomenda Elton Burian, diretor comercial e de marketing da Burguina Cobogó. Como a fabricação é artesanal, pode haver diferenças de tamanho em cada peça. 

A junta de assentamento, ou seja, aquele espaço deixado entre as peças durante a instalação, pode variar de 3 a 10 mm - não se esqueça de dar atenção ao rejunte para criar um bom acabamento. “A argamassa colante adequada é a do tipo AC III. Também recomendamos que as peças sejam impermeabilizadas com hidrofugantes ou óleo fugante em uma primeira demão para evitar o surgimento de manchas de instalação ou de manuseio. Após a instalação, passe mais duas demãos do produto”, aconselha Anderson. 

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Espelhos posicionados atrás de cada cobogó da parede aumentam a sensação de amplitude na Sala de Jantar, ambiente de Naomi Abe para a CASACOR SP 2018. Foto: Marco Antonio

Tipos de cobogó

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Área social do Edifício Brasil, no bairro da República, em São Paulo. Foto: Loft
  • Concreto: o material que deu origem ao cobogó é resistente e comumente especificado em ambientes abertos, já que pode pegar sol e chuva. Nos interiores, cria ambientes industriais e rústicos.
  • Vidro: mais delicado, permite a passagem de luz e combina com os estilos moderno e minimalista. Muito usado como painel decorativo ou divisórias de espaços com plantas, como jardim de inverno.
  • Gesso: pode ser usado nas áreas internas e externas. Por conta de seu acabamento branco, facilita a vida dos moradores que desejam permanecer com a cor. A desvantagem é a manutenção, pois a sujeira aparece mais facilmente.
  • Cerâmica: é o mais popular e está disponível em uma grande variedade de cores. Pode figurar em áreas externas e internas e seu acabamento natural lembra o tijolo. “Sem contar que são aptos para receber pintura com tinta fosca ou brilhante”, acrescenta a arquiteta Flávia Burin.

Como limpar cobogó

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Na Casa Up, projeto do escritório UP3 Arquitetura para a CASACOR 2021, cobogós marcam a fachada e servem de pano de fundo para o estar. Foto: André Nazareth

Como o ar circula por dentro da cavidade do bloco, é normal acumular poeira ou resíduos por ali. Então, apesar de simples, a limpeza deve ser feita com frequência: água e detergente neutro são eficazes para a higienização. Caso o espaço vazado seja pequeno, um aspirador de pó dá conta da tarefa. 

Para os cobogós recém-instalados, que ainda possuem restos de cimentos, é recomendado o uso de uma lixa d’água 320. E, se os blocos estão na área externa, como numa fachada, o ideal é a utilização da máquina de lavar com alta pressão jato leque aberto. Nunca limpe com materiais ásperos como esponjas de aço ou produtos abrasivos.

Cobogós com design assinado

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O desenho do Cobogó Mundaú remete ao formato do molusco. Foto: Divulgação

O Cobogó Mundaú é feito a partir da concha do sururu, molusco muito utilizado na culinária nordestina - a população em torno da Lagoa Mundaú (AL) descartava as conchas por ali e o acúmulo de resíduos gerava um problema ambiental e de saúde pública. Por meio de uma iniciativa desenvolvida por Marcelo Rosenbaum, Rodrigo Ambrósio e pelo Instituto A Gente Transforma, além do apoio da Pointer, marca do grupo Portobello, essas conchas começaram a ser transformadas de modo artesanal pela comunidade local e hoje compõem os cobogós vendidos em todo o Brasil. 

Com um recorte vazado em formato orgânico, a superfície do cobogó é inspirada no próprio contorno do marisco e reflete o brilho furta-cor da concha, ora com predominância de verde, ora com destaque no roxo.

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O cobogó “Mão” é feito com três tipos diferentes de argila. Foto: Divulgação

Quem também assina outro cobogó icônico são os irmãos Campana: impressionados pelo desastre ambiental ocorrido em Mariana (MG), Fernando e Humberto Campana criaram um tijolo cujo desenho interno representa o formato de uma mão, como um simbólico manifesto às tragédias causadas no estado.

Intitulado como “Mão”, o cobogó resulta da mistura de três diferentes tipos de argila. Parte do valor de venda das peças é revertida para as atividades sociais realizadas pelo Instituto Campana. As peças são feitas em parceria com a empresa Divina Terra.

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Foi repórter de decoração do Portal Loft. Jornalista formada pela ECA-USP, trabalha há mais de 10 anos cobrindo arquitetura, design e decoração. Com passagens por redações de revistas impressas e digitais, foi editora e socialmedia das marcas Casa.com.br, CASACOR, Minha Casa, A&C e Casa Claudia.

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